Tecnologia e Intimidade...

O medo, a ansiedade e a solidão são os sentimentos mais comuns numa sociedade tecnológica, individualista e burocrática. São mais comuns porque substituímos a intimidade pela tecnologia, acreditamos mais na burocracia do que nas pessoas e vamos nos tornando mais individualistas e menos afetivos. Diante deste quadro, o medo de amar, de não ser amado, do abandono, da traição, da morte e do fracasso intensificam-se, a ansiedade cresce e a solidão torna-se nossa companheira.
Para suprir a necessidade intrínseca da nossa humanidade na busca por intimidade, esta mesma sociedade que impõe sobre nós o medo, a ansiedade e a solidão usa os recursos da tecnologia, criando uma intimidade impessoal e ilusória. Os programas mais procurados na televisão são aqueles que expõem a intimidade de pessoas anônimas ou famosas. O país pára para ver e acompanhar passo a passo a gravidez e o parto da Xuxa, os namoros da Angélica, ouvir os segredos de alcova do Ronaldinho, as razões da separação da Adriane Galisteu, participar das brigas entre marido e mulher, pais e filhos, amantes e rivais. Nossa sala de visitas encontra-se sempre cheia.
As revistas que mostram a intimidade da casa de uma personalidade, que descrevem os ambientes mais aconchegantes e mostram os cenários privados criam em nós a falsa sensação de intimidade. Muitos sentem-se íntimos de pessoas cujas vidas e amores são expostos com detalhes nestas revistas. Falam deles nas rodas de conversa do trabalho como se falassem de alguém da família. Dão palpites, sofrem, choram e se alegram como se partilhassem do círculo mais íntimo destas pessoas.
Cresce também o número daqueles que ligam para os serviços 0900 para ouvir do outro lado da linha vozes sensuais, sussurrando frases eróticas, convidando para uma aventura amorosa. Os que ouvem sentem-se seduzidos, amados, desejados, mesmo que do outro lado da linha esteja uma mulher mal vestida, despenteada, jogando paciência enquanto repete como papagaio bem treinado as mesmas palavras que fala para todos os homens que lhe telefonam.
A tecnologia cria brinquedos que nos afastam da incoveniente presença de pessoas. É o lazer virtual. São os walkmen, grupos de conversa na internet, videogames. Não precisamos mais de um parceiro para jogar xadrez, tênis ou baralho: o computador faz isto com diferentes graus de dificuldade, permitindo até que você se irrite sem ofender alguém. Os consultórios de psicólogos, analistas e gurus espirituais são freqüentemente visitados por pessoas solitárias e, ao falar de suas vidas, compartilhar seus dilemas, lutas e solidão, vivem uma sensação falsa de intimidade sem reciprocidade, de mão única.
Jaques Ellul reconhece brilhantemente que a sociedade tecnológica vem substituindo a intimidade pela tecnologia. As máquinas, computadores, televisores e meios de comunicação vão substituindo as conversas de sala, o convívio da cozinha, o contato físico. As pessoas sentem-se cada vez mais inseguras diante do outro, não sabem o que fazer, o que falar, como fazer. Interiormente, sabemos que estamos nos tornando cada vez menos íntimos e pessoais.
Como reação, tentamos criar alguma forma de intimidade, mas não sabemos fazer isto, a não ser através de novas técnicas. Precisamos de técnicas para um desempenho sexual mais satisfatório, de um manual que nos ensine os dez passos para conquistar uma pessoa, técnicas para uma boa amizade, para uma vida de oração, para um testemunho cristão eficaz etc. Invertemos os pólos. Somos tecnocratas.
Igrejas apostam num modelo pragmático, eficiente, estruturado e dinâmico. Há pessoas e comissões encarregadas de tudo. Somos bem recebidos por pessoas uniformizadas e com crachás de identificação, integrados em algum grupo que foi treinado para receber os visitantes, instruídos na filosofia e na doutrina da igreja. Um belo dia, porém, percebemos que continuamos sozinhos. Cercados pela mais eficiente tecnologia de integração, mas ainda solitários.
Não podemos abolir a tecnologia. Ela está aí, e certamente torna a vida bastante simples em muitos aspectos. Mas precisamos resistir à sua intromissão e desejo de inverter o caminho da intimidade, de tecnologizar a realidade. A vida é mais complexa, mais rica em beleza, mais cheia de mistérios do que podemos imaginar. Precisamos resistir às pressões da cultura racionalista que reduz a compreensão da realidade, resistir às exigências da impaciência moderna que desaprendeu a virtude da espera, recuperar o significado do mistério, do es-panto, da admiração e da surpresa.
Deus nos criou, homem e mulher, à sua imagem e semelhança. Noutras palavras, fomos criados por Deus para, na semelhança com ele, nos relacionarmos, viver em comunhão. Intimidade é o nome que damos para esta forma de relacionamento. Muitos confundem intimidade com informalidade ou falta de reverência com facilidade. Acham que sentir-se à vontade é ser íntimo. Não se trata disto – pelo contrário, é o caminho reverente que percorremos em direção ao outro que se abre para um relacionamento pessoal, transparente e verdadeiro. É o convite que o apóstolo Paulo faz aos coríntios, quando diz: "Para vós outros, ó coríntios, abrem-se os nossos lábios, alarga-se o nosso coração. Não tendes limites em nós; mas estais limitados em vossos próprios afetos. Ora, como justa retribuição (falo-vos como a filhos), dilatai-vos também vós" (II Coríntios 6.11-13).
Para Paulo, a intimidade era tornar-se verdadeiro, único, pessoal, afetuoso em seu relacionamento. Não havia qualquer coisa a esconder, não havia limites, o coração se alargava, a boca se abria e falava. Era preciso que seus amigos o conhecessem, pois só assim seria verdadeiro, humano, cristão. Enquanto permanecemos limitados em nossos próprios afetos, reservados, receosos, tornamo-nos vulneráveis aos encontros virtuais, à intimidade falsa das fantasias da ilusão.
Paulo colocava-se como um exemplo vivo (II Coríntios 6.4-10); sabia que a melhor forma para preservar-se saudável, humano, íntegro, verdadeiro e coerente era viver de forma transparente, solidária, comunitária. Ele fala, expõe seus afetos, amplia o coração, não oferece resistência, nem impõe limites. Não nega as ambigüidades que sofre quem vive assim. Existiam aqueles que o consideravam um enganador desconhecido, sofria as desonras de opositores, as perseguições e tristezas. Mas optou pela comunhão, pelo amor, pela miseri-córdia, pela amizade.
Somos pessoas limitadas afetivamente. Paulo, ao contrário, buscava a intimidade. Precisava falar e ouvir, dar e receber, abrir o coração e encontrar corações abertos. Muitos não provam da graça porque encontram-se limitados nos seus próprios afetos.
Ricardo Barbosa de Souza é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto,
em Brasília.
Eclésia, Ano 4 – No. 48 – Novembro/1999